INSTRUÇÕES AOS SERVOS

Todos os servos que estão debaixo de jugo considerem dignos de toda honra o próprio senhor, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. Também os que têm senhor fiel não o tratem com desrespeito, porque é irmão; pelo contrário, trabalhem ainda mais, pois ele, que partilha do seu bom serviço, é crente e amado. Ensina e recomenda estas coisas.(1 Timóteo 6.1-2)

Teria Paulo tratado de um assunto que não fosse pertinente ao seu tempo? Não. Estas instruções nortearam a vida dos servos do primeiro século e devem ser ensinadas e recomendadas aos servos cristãos de todas as épocas. 

Parece que, nos primeiros dias do evangelho, os servos alimentavam forte expectativa, como se algum sinal de sua emancipação houvera se manifestado. E é evidente que a servidão era uma condição tal que não é de estranhar que a mesma fosse algo excessivamente odioso. Ora, geralmente sucede que os homens lancem mão com toda firmeza de tudo quanto tenha a mais leva aparência de ser de algum proveito para a carne. Portanto quando informaram que os homens são todos irmãos, imediatamente chegaram à conclusão de que era algo sem sentido que fossem eles servos de irmãos. Mas, na hipótese de nada disso nunca lhes ter passado pela mente, os homens desprezíveis sempre têm necessidade de consolação para aplacar a amargura de suas aflições. Além disso, era uma tarefa penosa persuadi-los a oferecer seus pescoços, voluntária e alegremente, a um jugo tão rude. Esse é o alvo do ensino de Paulo aqui, abordar a relação entre servo e senhor.

Em virtude da falsa persuasão de sua própria excelência, acalentada pelos indivíduos, não existe um sequer que de bom grado permita que outros exerçam domínio sobre ele. Os que não podem evitar as circunstâncias, involuntariamente obedecem aos que se encontram acima deles; interiormente, porém, se amofinam e se enfurecem, porquanto sua conclusão é que sofrem injúria. O Apóstolo com uma única palavra põe um termo final a todas as disputas desse gênero, requerendo submissão voluntária por parte de todos aqueles que estão debaixo do jugo. O que ele tem em mente é que não devem perguntar se merecem tal porção ou uma melhor; deve ser suficiente o fato de que se encontram sujeitos a tal condição.

Ao ordenar-lhes que considerem seus próprios senhores dignos de toda honra, a quem eles servem, o apóstolo requer deles não apenas fidelidade e diligência na execução de seus deveres, mas também que considerassem com sincero respeito a seus senhores como pessoas colocadas numa posição mais elevada que eles. Nenhum homem de bom grado entrega o que é devido a um príncipe ou a um senhor, a menos que respeite a eminência à qual Deus os tem elevado, e desse modo os honre como alguém sujeito a eles. Pois ainda que amiúde sejam indignos, a própria autoridade com que Deus os investiu lhes dá sempre o direito a tal honra. Além disso, nenhum homem voluntariamente presta serviço e obediência a seu senhor, a menos que creia que ele deve proceder assim. Por conseguinte, a submissão começa com esta honra da qual Paulo deseja que os governantes sejam considerados dignos.

Somos sempre mais inventivos do que deveríamos ser quando saímos em busca do nosso próprio proveito. Portanto, os servos que têm senhores incrédulos sempre têm na ponta da língua a objeção de que é errôneo que os que servem ao diabo governem sobre os filhos de Deus. Paulo, porém, usa o mesmo argumento a fim de alcançar a conclusão oposta, a saber: que devem obedecer aos senhores incrédulos a fim de que o nome de Deus e do evangelho não seja difamado – como se o Deus a quem adoramos estivesse incitando-nos à rebelião; como se o evangelho estivesse gerando obstinados e desobedientes, quando o nosso dever é o de nos sujeitarmos a outrem.

Os que têm senhores crentes, por outro lado, o título de irmão poderia parecer que aqui se estabelece a igualdade e abole o domínio. Paulo, porém, argumenta que, ao contrário, os servos devem submeter-se ainda mais voluntariamente a seus senhores, porque os reconhecem como filhos de Deus, e estão ligados a eles por laços de amor fraternal e são com eles partícipes da mesma graça. Não é uma honra insignificante que Deus os haja feitos iguais aos senhores naquilo que mais importa, pois participamos com eles na mesma adoção. Esta seria uma poderosa persuasão para que viessem a suportar a servidão com paciência. Além disso, a servidão é mais suportável sob senhores compassivos que nos amam e a quem amamos. Pois o vínculo da fé concilia aqueles que pertencem a diferentes classes e status. [ Ver João Calvino, As Pastorais, pp.161-163]. 

Como tem sido seu testemunho no caso de servo de um senhor incrédulo? E no caso de senhor crente? Atente para a recomendação de Paulo e não se esqueça das palavras de Jesus: “Porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem os escândalos!” (Mt 18.7) Rev. Ronaldo Bandeira Henriques.

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