“Maravilharam-se sobremaneira, dizendo: Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos.” (Mc 7.37)
O que esta declaração da multidão revela sobre a pessoa de Cristo e a perfeição de sua obra redentora?
Este texto encerra o relato da cura do surdo e gago com uma confissão admirada da multidão: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem”. Essa declaração, embora pronunciada por testemunhas ainda incapazes de compreender plenamente a identidade de Cristo, expressa uma verdade profundamente coerente com a teologia bíblica: o Senhor Jesus é o Filho eterno de Deus, perfeito em seu ser, em suas obras e em sua missão redentora. Na perspectiva reformada, esse texto não deve ser lido apenas como a reação popular diante de um milagre extraordinário, mas como uma janela para contemplarmos a glória do Mediador, cuja obra revela a sabedoria, o poder e a bondade de Deus. Ao examinar Marcos 7.37, veremos que a excelência das obras de Cristo manifesta sua divindade, confirma o cumprimento das promessas messiânicas e aponta para a restauração integral que ele realiza em seu povo.
No contexto imediato, Jesus se encontra na região de Decápolis, território marcadamente gentílico, após ter passado por Tiro e Sidom. Esse movimento geográfico não é acidental; ele evidencia que a graça messiânica avança para além das fronteiras étnicas de Israel. O mesmo Senhor que havia confrontado a falsa religião dos fariseus e declarado que a impureza procede do coração humano (Mc 7.14-23) agora demonstra, por suas obras, que o reino de Deus alcança os que estavam longe. Em paralelo, Mateus registra que, naquela mesma região, “vieram a ele muitas multidões […] e ele os curou”, de modo que “glorificavam ao Deus de Israel” (Mt 15.29-31). Essa observação é teologicamente significativa, pois sinaliza a abertura da bênção messiânica também aos gentios, em harmonia com o desenvolvimento posterior da revelação apostólica (At 10.11-18).
A cura do surdo e gago deve ser lida como sinal messiânico. Isaías havia profetizado acerca dos dias da salvação: “Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; […] e a língua dos mudos cantará” (Is 35.5-6). Em Marcos 7, essas promessas não permanecem em nível abstrato; elas se cumprem concretamente na pessoa e no ministério de Jesus. A teologia reformada sempre insistiu que os milagres de Cristo não são meros atos de poder isolados, mas sinais do reino e credenciais de sua identidade messiânica. Portanto, quando a multidão afirma que ele fez tudo “esplendidamente bem”, o evangelista nos conduz a reconhecer que em Cristo a nova criação já irrompeu na história, antecipando a restauração final de todas as coisas.
Além disso, esse homem surdo e gago ilustra, em sentido espiritual, a condição do pecador caído. Por natureza, o ser humano está incapaz de ouvir verdadeiramente a voz de Deus e impotente para confessar corretamente a sua verdade. A depravação total não significa que o homem seja tão mau quanto poderia ser, mas que o pecado corrompeu todas as dimensões de sua existência, inclusive sua percepção espiritual. Por isso, a restauração não pode proceder da vontade autônoma do homem, mas da ação soberana de Cristo. Quando Jesus diz “Efatá” — “Abre-te” — ele não apenas ordena, mas eficazmente realiza aquilo que ordena. Aqui contemplamos um retrato da graça eficaz: a palavra do Senhor não depende da cooperação do pecador para produzir vida; ela cria o que exige, abre o que estava fechado e desperta o que estava morto.
Ao mesmo tempo, o milagre aponta para uma realidade maior do que a cura física. O Jesus que faz o surdo ouvir e o mudo falar é o mesmo que, pela operação do Espírito, concede entendimento espiritual aos eleitos e coloca em seus lábios a confissão de fé. Isso está em harmonia com toda a economia da redenção: Deus chama eficazmente os seus, ilumina-lhes a mente, renova-lhes a vontade e os atrai a Cristo. Portanto, Marcos 7.37 não exalta apenas a beleza de um ato compassivo; exalta a glória do Redentor cuja palavra é criadora, restauradora e irresistível.
A excelência das obras de Cristo é, em primeiro lugar, a excelência de seu poder soberano. O Senhor não apenas melhora a condição do homem; ele a transforma por completo. A audição é restaurada, a fala é liberada, e o milagre ocorre de modo imediato e perfeito. Não há imperfeição, demora ou fracasso na operação do Salvador. Tal realidade aponta para a suficiência absoluta de Cristo em sua obra redentora. Assim como ele abriu os ouvidos daquele homem, ele também abre o coração para a fé, pois a salvação pertence ao Senhor. A fé reformada reconhece aqui a eficácia invencível da graça divina: aqueles a quem Cristo chama, ele vivifica; aqueles a quem ele toca, ele restaura.
A excelência das obras de Cristo também aparece na maneira como ele age. Jesus conduz o homem à parte, toca seus ouvidos, toca sua língua, ergue os olhos ao céu, suspira e então pronuncia sua palavra poderosa. Esses gestos não revelam limitação, mas sabedoria pedagógica e compaixão concreta. O Senhor trata pessoas reais em circunstâncias reais, e sua ação é sempre perfeita em forma e propósito. Isso nos lembra que Deus não está preso a métodos humanos nem subordinado a expectativas utilitaristas. Ele opera segundo o conselho da sua vontade, e nenhum de seus atos é arbitrário ou falho.
Esse princípio permanece verdadeiro na economia ordinária da salvação. Deus usa a pregação da Palavra, os sacramentos e a comunhão dos santos como meios de graça; contudo, ele continua sendo livre e soberano na aplicação desses meios. Como afirma Jó 33.13, Deus “não te dá contas de nenhum dos seus atos”. Isso não significa arbitrariedade, mas perfeita sabedoria. Cristo jamais erra no modo, no tempo ou na medida de sua atuação. Tudo o que ele faz é santo, justo e bom, mesmo quando sua forma de agir excede nossa compreensão imediata.
A exclamação da multidão — “Tudo ele tem feito esplendidamente bem” — possui extraordinário alcance teológico. Ainda que os presentes não compreendessem plenamente o mistério da encarnação, a declaração deles aponta para a bondade perfeita das obras divinas desde a criação. Em Gênesis 1, Deus vê repetidas vezes que sua obra é boa e, ao final, “muito boa”. Em Cristo, o Verbo encarnado, essa excelência reaparece não apenas como perfeição criadora, mas como perfeição redentora. Ele faz bem todas as coisas porque é o Filho eterno, consubstancial ao Pai, que veio ao mundo para realizar perfeitamente a vontade daquele que o enviou.
Essa verdade sustenta o crente tanto na memória do passado quanto na esperança do futuro. Na conversão, na santificação, nas aflições, nas consolações e, por fim, na glorificação, Cristo faz tudo bem. Muitas vezes, no presente, vemos “como em espelho, obscuramente” (1Co 13.12), mas no dia final reconheceremos sem reservas a perfeição de sua condução. Nada em sua providência é supérfluo; nada em sua obra redentora é incompleto. O Bom Pastor conduz infalivelmente cada uma de suas ovelhas até o fim.
Marcos 7.37 nos conduz a uma elevada confissão cristológica: Jesus faz tudo esplendidamente bem porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e sua obra manifesta a perfeição do plano eterno de Deus. Seu poder cura, sua sabedoria ordena, sua graça restaura e sua missão cumpre as promessas do pacto. O milagre em Decápolis é, portanto, mais do que um ato de compaixão momentânea; é um sinal do reino, uma evidência de que o Messias chegou e uma antecipação da restauração plena prometida nas Escrituras. Em Cristo, as promessas de Deus são sim e amém.
A aplicação desse texto é clara. Primeiro, somos chamados a confiar plenamente em Cristo, pois não há imperfeição em suas obras nem fracasso em seus decretos. Segundo, devemos adorá-lo com reverência, reconhecendo que sua excelência não é apenas moral, mas divina e redentora. Terceiro, somos exortados a descansar em sua providência, mesmo quando não compreendemos seus caminhos, sabendo que ele faz tudo bem. Finalmente, a Igreja é chamada a proclamar com ousadia que o mesmo Cristo que abriu os ouvidos do surdo continua abrindo corações pela Palavra e pelo Espírito. Portanto, em vez de confiar em recursos humanos ou métodos meramente externos, devemos depender da suficiência de Cristo, do poder de sua Palavra e da eficácia de sua graça. Assim, a confissão da multidão deve tornar-se a confissão consciente da Igreja: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem” (Mc 7.37). Rev. Ronaldo B. Henriques

