O pecado de nossos primeiros pais, bem como o de toda humanidade, visto que todos pecaram (Rm 3.23; 5.12), trouxe sobre toda a natureza um estado de maldição e juízo (Gn 3.17-19), tendo o homem agora que arcar com as consequências de sua escolha, estando irremediavelmente perdido, já que nele estava o símbolo da total impossibilidade de agradar a Deus e reconciliar-se. Agora se tornou escravo do pecado, tendo sua vontade governada por este tirano (Jo 8.34).
A impossibilidade do homem realça a possibilidade de Deus; o possível para o homem o é por Deus; contudo, é na impossibilidade do homem que ele se lembra do Deus Todo-Poderoso. O pecado do homem, permitido por Deus, pôs em andamento a execução histórica do plano eterno e sábio de Deus, para salvar o seu povo escolhido desde a eternidade. Sem o pecado não seria necessário o sacrifício de Cristo e, por outro lado, o pecado não obriga Deus a enviar seu Filho para morrer pelo seu povo; Deus não é obrigado a nos salvar; ele o faz por sua graça.
Deus sempre age em harmonia com o seu ser. O homem é pecador e, por isso, precisa ser punido pelo seu ato de rebelião contra Deus; a disciplina faz parte da execução da justiça externa de Deus. Por outro lado, Deus em seu amor eterno, infinito é causado em si mesmo – visto que não há nada em nós que mereça ou mesmo desperte o amor de Deus – deseja salvá-lo (Jr 31.13; Ef 1.13,14). A justiça de Deus é santa e o seu amor é real; a graça de Deus não é barata ela custou um alto preço para Deus. A graça é a própria fonte do Evangelho; sem a graça de Deus não haveria boas novas da salvação; todos nós herdaríamos as conseqüências eternas dos nossos pecados. Todavia a graça reina e Jesus Cristo é sua personificação; ele encarna a graça e a verdade (Jo 1.17;14.6). Ele é a causa, o conteúdo e a manifestação da graça de Deus; falar de Cristo é falar de Graça. Deste modo, Deus tornou-se um de nós (Jo 1.14; Gl 4.4,5), a fim de resgatar-nos do poder e maldição do pecado.
Em resumo “tudo é Deus”: o desejo de perdoar e reconciliar, os meios indicados, a provisão da vítima vinda do seu próprio ser, mediante preço infinito. Tudo acontece dentro da própria vida de Deus; pois se tomamos a cristologia do Novo Testamento, temos que afirmar que “Deus estava em Cristo” neste grande sacrifício expiatório, e que o Sacerdote e a Vítima eram o mesmo Deus. [Cf. Donald M. Baillie, Deus Estava em Cristo, p.215]
Com o sofrimento de Cristo aprendemos que a Bíblia não faz distinção entre o amor de Deus o Pai, do Deus o Filho e o Deus Espírito santo; O sacrifício de Cristo revela o amor do trino Deus; O Pai não passou a nos amar porque o seu Filho morreu por nós; antes, o Filho morreu por nós porque o trino Deus eternamente nos amou e confiou-nos ao Filho. (Jo 3.16; 10.22-30; 15.16; 17.6-26; Rm 5.8; 1Jo 4.9). Rev. Ronaldo Bandeira Henriques.

