RECONSTRUINDO COM CRISTO

O que sustenta a fé do povo de Deus quando tudo ao redor parece se opor à verdade do Evangelho? Neemias 4 apresenta um povo chamado a reconstruir os muros de Jerusalém em meio à zombaria, às ameaças e ao desânimo. Essa questão atravessa o episódio bíblico, a Reforma Protestante e a vida da Igreja hoje. A resposta não está na força humana, mas no Deus soberano, que conduz seu povo por meio da oração, do trabalho responsável e da vigilância, tendo Cristo como fundamento.

Diante do desprezo de seus inimigos, Neemias não escolheu a vingança; voltou-se para Deus: “Ouve, ó nosso Deus, pois estamos sendo desprezados” (Ne 4.4). A oração foi seu primeiro recurso, porque ele reconhecia que a batalha pertencia ao Senhor. Contudo, sua confiança não produziu passividade: “Porém nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda contra eles de dia e de noite” (Ne 4.9). Fé e responsabilidade caminhavam juntas. Orar significava depender da soberania divina e, ao mesmo tempo, agir com prudência.

Esse princípio também marcou a Reforma Protestante. Lutero (1483–1546), Calvino (1509–1564) e outros reformadores enfrentaram oposição ao defender que a Igreja deveria permanecer firmada na Palavra de Deus. A oração, entendida por Calvino como o principal exercício da fé, expressava dependência de Deus e confiança em Cristo, nosso Mediador e Intercessor. Por isso, a Igreja não enfrenta a oposição apoiada em seus próprios méritos, mas naquele que “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25).

Neemias também demonstra que a providência divina não elimina o planejamento. O povo foi organizado, as tarefas foram distribuídas e todos receberam uma visão clara da obra. Assim, “todo o muro se completou até à metade da sua altura, porque o povo tinha ânimo para trabalhar” (Ne 4.6). O chamado para lembrar-se do Senhor, grande e temível, não anulou a necessidade de estratégia; deu sentido e coragem ao trabalho. Planejar, portanto, é parte da mordomia cristã: usamos com sabedoria os meios que Deus concede e realizamos tudo para a glória de Cristo, “como ao Senhor, e não aos homens” (Cl 3.23).

A reconstrução exigiu ainda vigilância perseverante. Enquanto alguns edificavam, outros mantinham as armas prontas, e até os trabalhadores carregavam com uma mão enquanto se protegiam com a outra (Ne 4.17). Essa imagem ensina que a confiança em Deus não dispensa o discernimento. Jesus ordenou aos discípulos que vigiassem e orassem, e a Reforma recordou à Igreja a necessidade de guardar a verdade pelas doutrinas da sola Scriptura, solus Christus, sola gratia, sola fide e soli Deo gloria. Hoje, essa vigilância continua necessária diante das falsas doutrinas, tentações e divisões que ameaçam a comunhão e o testemunho cristão.

O centro dessa reconstrução, porém, não é Neemias nem qualquer reformador. Cristo é o verdadeiro fundamento, intercessor e protetor do povo de Deus. Ele é a pedra angular sobre a qual a Igreja é edificada (Ef 2.20). A oração encontra nele seu Mediador; o planejamento recebe dele seu propósito; e a vigilância permanece firme por sua graça. Quando Cristo ocupa o centro, a oposição não desaparece, mas deixa de determinar o destino da obra.

Por isso, a Igreja é chamada a reconstruir com confiança: orando como quem depende inteiramente de Deus, trabalhando com responsabilidade e vigiando com discernimento e coragem. A segurança do povo não está na ausência de conflitos, mas na fidelidade daquele que o sustenta. Assim, podemos permanecer “firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor”, sabendo que, nele, o nosso trabalho não é vão (1Co 15.58). Rev. Ronaldo Bandeira Henriques.