HOMEM, UM SER QUE ESQUECE 

“Guarda-te não te esqueças do Senhor, teu Deus, não cumprindo os seus mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos, que hoje te ordeno; …Se te esqueceres do Senhor, teu Deus, e andares após outros deuses, e os servires, e os adorares, protesto, hoje, contra vós outros que perecereis.” (Deuteronômio 8.11,19)

Você se lembra do último hino que cantou, ou do último texto que leu na Escritura e da aplicação deles para sua vida? Espero que não tenha esquecido!

“O homem é um ser que esquece”, já dizia o poeta grego Píndaro (522-443 a.C). Moisés (1526-1406 a.C), muito antes, já estava preocupado com o caráter esquecidiço do homem, exortando o povo hebreu a ter sempre o Senhor Deus na memória. E não foi somente Moisés que destacou o esquecimento humano na Escritura, em todo o Antigo Testamento encontramos o verbo “esquecer” cerca de 102 vezes. Tudo isso para não esquecermos, que esquecemos.

Encontramos com freqüência, na Escritura, o homem como aquele que se esquece. E em boa parte destas ocasiões, esquecer, não é simplesmente um ato psicológico em que o pensamento sai do estado consciente, um lapso temporário da memória. Isso afirmamos porque é comum encontrarmos o verbo associado a uma ação. É neste particular que gostaríamos de aprender com estes dois versos de Deuteronômio 8.

No primeiro verso aprendemos que esquecer-se de Deus é ignorar os seus mandamentos (Dt 8.11). Poderíamos perguntar, por que tanta importância dada aos mandamentos? É bom lembrar que a relevância dos mandamentos não está apenas em possuírem um elevado código de normas para vida humana. Sua importância é destacada por causa de sua origem divina, ou seja, os mandamentos que estamos apreciando não resultam da mera inteligência de qualquer legislador humano. Não era uma criação de Moisés, apesar de sua notável cultura e instrução. Eles foram legislados por Deus (Dt 6.1). E exatamente por causa da origem divina dos mandamentos é que quando deixamos de procurar cumpri-los, nos esquecemos do legislador, nos esquecemos de Deus. A Escritura parece indicar que a saciedade é o principal fator que leva alguém a se esquecer de Deus (Dt 8.12 e ss; Os 13.6). Assim sendo, cuidado, esquecer dos mandamentos é esquecer-se de Deus.

 O segundo verso nos ensina que esquecer-se de Deus é seguir outros deuses (Dt 8.19). Este ensino está compreendido no anterior, pois, trata-se exatamente da desobediência ao primeiro dos mandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3; Dt 5.7). Mesmo assim, Moisés, profundo conhecedor da memória humana, achou por bem aconselhar o povo quanto ao perigo de seguir, servir e adorar outros deuses. O risco implicava em perecer por desígnio do único Deus verdadeiro. E precisamente devido ao fato de Deus ser o único Senhor (Dt 6.4) é que quando olhamos para outros deuses, fruto de nosso imaginário, criamos deuses por nós mesmos, e deixamos de ser criaturas de Deus para ser criadores de deuses aos quais seguimos, servimos e adoramos, nos esquecendo do Deus único, não criado, nosso criador e de todas as coisas. Portanto, podemos não só desobedecer aos mandamentos de Deus, mas também, criar falsos deuses e os seguirmos, nos esquecendo de Deus, para nossa própria destruição. Tenha cautela, seguir outros deuses é esquecer-se de Deus.       

Espero que não tenha esquecido a letra do último hino, ou do texto da Bíblia que leu e do ensino deles para sua vida, mas se for o caso, comece a partir de hoje lembrar que somos esquecedores e que a Escritura nos exorta a não nos esquecermos disso.

Façamos nossas as palavras de Agostinho (354-430 a.D): “desde que Vos conheci (Deus), permaneceis na minha memória, onde Vos encontro sempre que de Vós me lembro e em Vós me deleito.” (Confissões X, 24) Rev. Ronaldo Bandeira Henriques.