A ressurreição de Jesus Cristo é o evento central do cristianismo, fundamento da esperança e da fé, e razão maior da celebração da Páscoa. Mais do que um rito anual, a Páscoa aponta para a vitória definitiva sobre o pecado e a morte, anunciada e cumprida no Cristo ressuscitado. Em Mateus 28.1-10, encontramos o relato da aurora da nova criação, onde tristeza e dor se convertem em alegria indizível, conforme prometido pelo Senhor. Este texto propõe uma breve exposição à luz da tradição reformada, relacionando o significado da ressurreição com a Páscoa cristã.
O evangelho de Mateus, escrito em contexto judaico, busca demonstrar que Jesus é o Messias prometido, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. O capítulo 28 inicia após o sábado, “o primeiro dia da semana”, evocando o início de uma nova era. Mateus destaca a presença de Maria Madalena e “a outra Maria”, testemunhas oculares do túmulo vazio, enquanto outros evangelistas acrescentam nomes e detalhes (Mc 16.1; Lc 24.10; Jo 20.1). O cenário é marcado por preocupação e tristeza, pois as mulheres se perguntam quem removeria a pedra do sepulcro. No entanto, são surpreendidas pela intervenção divina: a pedra já fora removida, o túmulo está vazio, e o anjo anuncia a ressurreição.
O original grego das narrativas revela nuances importantes. O termo “proi” (πρωί), traduzido como “muito cedo” (Mc 16.2), indica o início do novo dia, simbolizando a nova criação em Cristo. O verbo “egeíro” (ἐγείρω), usado para “ressuscitar”, carrega o sentido de levantar-se, de erguer-se por ação de Deus. O anjo anuncia: “Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito” (Mt 28.6), enfatizando o cumprimento da Palavra e a fidelidade divina. A teologia reformada, baseada na soberania de Deus e na centralidade de Cristo, interpreta a ressurreição como obra exclusiva do Senhor, garantindo a justificação e a regeneração dos crentes (Rm 4.25; Ef 2.4-6).
As mulheres são as primeiras a receberem o anúncio da ressurreição, invertendo expectativas sociais e religiosas da época. Elas representam a humildade e a disposição para crer, sendo enviadas como mensageiras aos discípulos. O texto destaca a corporeidade da ressurreição: Jesus aparece, elas o adoram e “abraçaran-lhe os pés” (v.9), indicando não uma experiência subjetiva, mas um evento histórico e físico. A teologia bíblica afirma que a ressurreição é a confirmação da obra redentora, a vitória sobre o pecado e a morte (1Co 15.20-22), e a garantia da ressurreição futura dos crentes. O evento é interpretado como cumprimento das promessas de Deus, inaugurando o Reino e reafirmando a esperança escatológica.
A ressurreição de Cristo é a base da pregação e da fé cristã (1Co 15.13-19). Sem ela, a mensagem do evangelho perde sentido, e a esperança se esvai. Contudo, “Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20), garantindo vida eterna e vitória sobre a morte. A Páscoa, na perspectiva reformada, não é apenas uma recordação, mas celebração da nova vida em Cristo, da redenção e da certeza da ressurreição final. O texto de Mateus 28.1-10 nos desafia a crer, a proclamar e a viver a alegria da ressurreição, mesmo em meio à tristeza e às dúvidas do presente.
A celebração da Páscoa, à luz da ressurreição, é renovada e transformada. Não se trata de um rito vazio, mas de um memorial vivo, que nos impulsiona a viver com firmeza e abundância “na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58). A vitória de Cristo sobre a morte nos convida a abandonar a tristeza, a abraçar a esperança e a proclamar a vida nova. Assim, cada Páscoa é um convite à renovação da fé, à confiança nas promessas de Deus e ao testemunho da vitória de Jesus que tragou a morte para sempre (Is 25.8). Que a alegria da ressurreição seja o fundamento de nossa adoração, serviço e esperança, hoje e sempre. Rev. Ronaldo Bandeira Henriques.

